O Sossego de Pessoa | 2

Passaram poucos meses da publicação da obra completa de Álvaro de Campos, o heterónimo engenheiro de Fernando Pessoa, nascido em Tavira. Eis um dos seus poemas a meu ver mais lindos e luminosos.

«MAGNIFICAT

Quando é que passará esta noite interna, o universo,

E eu, a minha alma, terei o meu dia?

Quando é que despertarei de estar acordado?

Não sei. O sol brilha alto,

Impossível de fitar.

As estrelas pestanejam frio,

Impossíveis de contar.

O coração pulsa alheio,

Impossível de escutar.

Quando é que passará este drama sem teatro,

Ou este teatro sem drama,

E recolherei a casa?

Onde? Como? Quando?

Gato que me fitas com olhos de vida, quem tens lá no fundo?

É esse! É esse!

Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;

E então será dia.

Sorri, dormindo, minha alma!

Sorri, minha alma, será dia!»

Álvaro de Campos

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