O sossego de Pessoa | 7

Não meu, não meu é quanto escrevo,

A quem o devo?

De quem sou o arauto nado?

Porque, enganado,

Julguei ser meu o que era meu?

Que outro mo deu?

Mas, seja como for, se a sorte

For eu ser morte

De uma outra vida que em mim vive,

Eu, o que estive

Em ilusão toda esta vida

Aparecida,

Sou grato. Ao que do pó que sou

Me levantou.

(E me fez nuvem um momento

De pensamento).

(Ao de quem sou, erguido pó,

Símbolo só).

Fernando Pessoa (1932)

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