Lançamento do livro “Islâmicos 14:38” de Isaac Jaló (10 mai.)

A linha de investigação Herança e Espiritualidade Islâmica da Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona organiza o lançamento do livro Islâmicos 14:38 de Isaac Jaló (Chiado Books, 2018). O evento decorre a 10 de maio às 17h30 no Auditório Armando Guebuza da Universidade Lusófona (edifício da Biblioteca). A entrada é livre.

Estará presente o autor.

Eis uma sinopse e um excerto da obra, que trata, entre outos assuntos, do tema da mutilação genital feminina, prática nefasta de algumas zonas da África, erroneamente associada ao Islão.

Islâmicos 14:38, por Isaac Jaló

Num mundo onde os valores morais são postos à prova diariamente, vive Fatumata, adolescente nascida e criada no seio de uma família de muçulmanos, cujas tradições lhe estão marcadas a ferro e fogo no corpo e que vê a sua inocência ser-lhe arrancada da alma, impotente. É na sua crença que vai encontrar a força para escolher um novo caminho para percorrer. Esta é a história do amor, da fé, da vontade e da perseverança, contada pela voz de alguém que acredita.

«O trio tomou-a pelas mãos, tentando domar o seu corpo barafustador que se recusava a render-se. Pegou-lhe, uma das três, a sua perna esquerda, à medida que
outra pegou a sua perna direita. A terceira, de alas abertas, aproximou-se dela com a
lâmina, A mãe mirava o chão, penosa, a criança mirava o texto, desesperada. A gritaria imensa pelo socorro passava nula pelas pessoas, como se a ação se passasse
numa película de um filme mudo. Antes fosse uma mera película aquele pedaço de
pesadelo. “Larguem-me, larguem-me. Por favor, larguem-me”, mas não. Segurada,
firmemente, impotente, prosseguiu o seu corpo para a feita do gume, a vagina como
seu alvo. Imagine-se a dor, o horror. Seguiram-se cortes no seu interior, cortes nada
cirúrgicos, cortes caseiros, cortes que não vinham em manuais nem se aprendiam em aulas de medicina. Cortes aleatórios com fim determinado, o clitóris feito vítima com os seus lábios descascados por quem seguia a ciência da cultura. E então a coloração múltipla do vestido resumiu-se numa só, um vermelho carregado de trauma e angústia. O choro cessara-se por suspensão da consciência. Um desmaio interrompeu os sentidos de Fatumata, mas não interrompeu a operação. Corpo inanimado, rezava-se para que ainda estivesse vivo, o que poderia não acontecer. Eram muitas as que morriam mutiladas. Morta ou não, deu-se continuidade, uma lâmina tão pequena dera forma à maior das atrocidades. Uma criança tão pequena dera lugar à maior das atrocidades. E por uma perspetiva tão paupérrima como a de selar a sua virgindade. Depois de indevidamente cortada, ervas e pastas deram entrada, não só em cena, mas no interior dos seus genitais mutilados. Introduzidos com o propósito de facilitar a cicatrização. E para conclusão do processo que deixava marcas para uma vida, não só físicas, como emocionais e psicológicas, as pernas eram fortemente atadas, fechadas para que aquela zona cicatrizasse, simplesmente por encerramento. Agora sim, largavam-na, agora podiam porque a missão estava cumprida. Estava ela purificada. E estavam elas gratas. Porque, de igual modo, tinham-se também purificado as suas mães e as suas avós. Fatumata daria continuidade ao legado que apelidavam de fanado, outro dos rituais que empobrecia tão rico continente.»

Isaac Jaló, Islâmicos 14:38

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