Fernando Pessoa

Fernando Pessoa (Lisboa, 1888-1935) é considerado um dos maiores escritores da língua portuguesa e do século XX. A obra dele abrange a poesia, a filosofia e outras áreas da literatura e do pensamento. O seu marco mais representativo é o fascinante fenómeno do «heteronimismo», que consiste em Pessoa ter inventado autores fictícios – os heterónimos -, cada um deles tendo “escrito” uma obra e sendo caraterizado por um estilo literário, ideias e uma biografia individual, diferentes dos outros heterónimos e do próprio Pessoa (ele-mesmo, ou ortónimo). Os heterónimos principais e mais conhecidos são os poetas Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Outro autor fictício é Bernardo Soares, indicado como sendo o autor do Livro do Desassossego, a obra em prosa mais lida e traduzida de Pessoa.

Fernando Pessoa: o poeta é um pensador

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Almada Negreiros, Retrato de Fernando Pessoa, 1964

Para além de como escritor de ficções literárias e autor de versos poéticos, Fernando Pessoa tem sido cada vez mais estudado como pensador, sobretudo nos domínios da filosofia, da história da cultura e da civilização, da religião e da política. Em alguns seus escritos, ele se definiu «poeta animado pela filosofia» e «poeta e pensador». Não é raro encontrar nos seus versos aquela que o próprio Pessoa definia como «primitiva grega forma de filosofar pela poesia». Além de pela poesia, Pessoa dedicou-se ao longo da sua vida a explorar os acima mencionados domínios do conhecimento através de uma constante atividade de raciocinador e de autor de prosas, entre as quais muitas sobre temas filosóficos, religiosos e espirituais.

Fernando Pessoa e o Islão

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Surgindo muito cedo na escrita filosófica do adolescente Pessoa e caraterizando uma parte da produção filosófica do autor fictício António Mora, os temas árabes e islâmicos foram abordados por Fernando Pessoa ortónimo, durante a idade adulta, em vários momentos e áreas do seu pensamento e da sua obra. Pessoa refletiu e escreveu acerca do Islão, da filosofia islâmica, da cultura científica na civilização islâmica, das literaturas árabe (al-Mu’tamid) e persa (Omar Khayyam), das mentalidades e culturas dos povos islâmicos, da presença islâmica na Península Ibérica medieval bem como na história e nos mitos portugueses. Todas estas vertentes têm sido estudadas em pormenor por Fabrizio Boscaglia, a partir de 2010, na sua tese de doutoramento defendida em 2015 na Universidade de Lisboa, assim como em livros e estudos científicos, muitos deles apresentados em Congressos internacionais.

O Espólio e a Biblioteca particular de Pessoa

Pessoa publicou uma pequena – ainda que significativa – parte da sua obra. As razões disto são diversas e o próprio Pessoa refletiu sobre a questão de os génios serem plenamente reconhecidos só postumamente. Quando faleceu, em 1935, deixou uma arca cheia de papéis. São cerca de 27.000 os documentos que constituem o seu espólio, a grande parte dos quais inéditos aquando da sua morte. Ainda na década de 2010, existem milhares de papéis ainda por ser editados. Além disso, Pessoa deixou uma biblioteca particular de cerca de 1.300 livros, muitos deles anotados. O espólio, após ter passado pelas mãos da família e dos amigos do escritor, encontra-se guardado na Biblioteca Nacional de Portugal e parcialmente disponível online, enquanto a biblioteca particular está na Casa Fernando Pessoa e foi quase inteiramente digitalizada, ficando disponível gratuitamente no site da referida instituição, graças a um projeto em que Fabrizio Boscaglia participou (v. vídeo da Sapo Notícias). Ele tem publicado, ao longo dos anos, vários inéditos de Pessoa, transcritos a partir de pesquisas nos arquivos do autor.

A Lisboa de Fernando Pessoa

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A cidade de Lisboa, capital portuguesa e do império que foi, é uma grande “protagonista” da obra e da vida de Pessoa. É a cidade onde este nasceu e viveu durante a grande parte da sua vida, com um significativo interlúdio de nove anos em Durban, na África do Sul, entre os oito e os dezassete anos de idade. Apesar do forte marco que a experiência africana deixou na vida e no caráter de Pessoa, este ficou sempre muito ligado à sua cidade de nascimento, várias vezes homenageada na sua obra, especialmente no Livro do Desassossego e na poesia de Álvaro de Campos. Além disso, Lisboa acompanhou alguns dos momentos mais marcantes da biografia de Pessoa, como o lançamento da revista Orpheu que foi planeado nas tertúlias dos cafés literários lisboetas, ou o namoro com Ofélia Queirós, entre as ruas da Baixa e do Rossio. Os projetos turístico-literários sobre Pessoa, realizados por Fabrizio Boscaglia, são “Lisboa com Fernando Pessoa” (em colaboração com Lisboa Autêntica) e “Fernando Pessoa’s Lisbon” (com Airbnb): trata-se de passeios literários que pretendem mostrar a Lisboa de Pessoa através de um olhar invulgar, diferente e informado.

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