Foi a 16 de maio de 2019, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. A convite de Maria Celeste Natário e Renato Epifânio, participei no «Seminário Internacional Portugal-Goa: os Orientes os Ocidentes», com a comunicação intitulada «Akbar e os portugueses: um caso de diálogo islamo-cristão na Índia do século XVI». Fiquei na sala, depois desta minha intervenção, para ouvir os colegas.
Entre eles, Jorge Croce Rivera, que falou de José Marinho, mas também da China e nos provocou, contundente e sarcástico como sempre, ao questionar sobre como será, um dia, para nós europeus, ter de apreender mandarim como língua do pensamento de uma nova civilização sobre nós dominante. A comunicação dele intitulava-se «Visão auroral, saber do Oriente e pensamento asiático na meditação de José Marinho».
Jorge Croce Rivera tem sangue italiano e é, de facto, sanguigno, como costumamos dizer em Itália, ou seja, é quente, vivaz, particularmente na crítica filosófica e na provocação intelectual. Não me lembro bem do que ouvi na fala dele, do que entendi, se é que entendi algo – pois Marinho é pensador complexíssimo -, mas algo tocou-me, e não só na mente, antes sobretudo no coração, na intuição, naquele tipo de imaginação que vê o que a linguagem, por vezes, demora anos para conseguir ou tentar explicar.
Alguma coisa eu captava daquela metafísica e daquela ontologia feitas de «cisão extrema» e de «insubstancial substante», e, de repente, como uma fulguração, deparei-me com uma centelha, uma voz interior que me dizia algo acerca de Pessoa e Marinho, e de Camões e Pessoa, e de Camões, Pessoa e Marinho, e deles todos e Portugal e do Ocidente contemporâneo… Em particular, aquela palavra, cisão, parecia-me uma expressão tão radical e filosoficamente pregnante, não só para interpretar Pessoa, mas para pensar Pessoa (para Pessoa pensar), particularmente no que respeita à dimensão ontológica, metafísica, onto-teológica, que o próprio Pessoa visita e desassossega, nomeadamente através da vertigem estética e auto-psico-gráfica do heteronimismo. Tal como Heidegger tinha pensado Nietzsche, não será que Marinho pensou Pessoa? Ou seja, Nietzsche a pensar através de Heidegger tal como Pessoa através de Marinho, e de forma decisiva, necessária e fatal?
Tal como Nietzsche foi o grito incompreensível que só se revela como palavra filosofante através de Heidegger, talvez Pessoa tenha sido algo análogo, uma quebra enigmática, que só se cumpre como idéia pensante através de Marinho, o qual, assim, sela, transcende (e abroga?) Pessoa. E não será também que Marinho diz Pessoa, diz o que Pessoa não conseguiu dizer e ser, mas que queria ou devia dizer e ser, tal como Pessoa – segundo o próprio – disse o que Camões não conseguiu dizer e ser? A cada segundo, a questão se me impunha, apesar de no vago deste tipo de intuições, e sabia que tinha de deixá-la sair, mesmo que – como depois efetivamente aconteceu – os colegas me olhassem com alguma perplexidade.
Terminada que foi a comunicação do Jorge, tomei a palavra durante o debate e, após ter expresso a minha admiração pela intervenção dele, disse-o, questionei, deixei desatar a pergunta, que já sabia a resposta e que inquietou a sala:
«Não será José Marinho o Supra-Pessoa?»
Pareceu-me que a Maria Celeste olhasse para mim como se eu fosse doido. O Jorge prontamente rematou que não necessariamente gostava daquela expressão para se qualificar Marinho. Mais recentemente, voltámos a conversar sobre isso os dois, e ele deu-me a impressão de estar mais interessado em deixar-se provocar, ele, o principal editor (e mais do que isso) de José Marinho, por este “jovem” estudioso de Pessoa, que pouco ou mesmo quase nada sabe acerca do pensamento de Marinho.
Ontem, no dia 30 de janeiro de 2025, encontrei mais duas pessoas que levaram à sério esta minha provocação, esta minha intuição-intenção questionante. Trata-se de António Braz Teixeira e Renato Epifânio. Foi durante o colóquio «Manuel Ferreira Patrício: pensamento e obra», no nevoeiro do auditório da Biblioteca Nacional de Portugal, onde novamente eu tinha dito o que aqui repito pela escrita – e uma vez mais com humildade, respeito e atitude interrogativa -, ou seja, que José Marinho é o Supra-Pessoa.
E Deus – louvado seja – sabe mais, e o sucesso vem Dele!
Lisboa, 31 de janeiro de 2025,
Fabrizio Boscaglia
Origem das imagens: https://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Pessoa#/media/Ficheiro:Pessoa_chapeu.jpg; https://conversamos.wordpress.com/2019/02/01/nascido-do-dia-jose-marinho/.