Voltar a Óbidos, desta vez com chuva outonal, foi diferente. Saímos de Lisboa com Gianfranco Ferraro às dez da manhã, no meio de uma tempestade, de autocarro. Passámos a viagem a falar de mafia. O Gianfranco é siciliano, eu sou meio siciliano, somos apaixonados por estas problemáticas. Vamos a Óbidos para falar de «Os riscos da conversão», porque ele está a preparar, juntamente com António de Castro Caeiro, o livro Formas da Conversão: Filosofia, Política, Espiritualidade (Abysmo, no prelo).
Quando a organização do festival literário Folio me pediu uma proposta de atividade para a edição de 2023, dedicada ao tema do «Risco», logo pensei que pudesse ser uma boa ocasião para envolver o meu amigo Gianfranco e este seu interessante projeto, que ele realiza enquanto investigador nos campos da Filosofia e dos Estudos Globais.
Chegamos a Óbidos ao meio-dia e logo somos acolhidos no ambiente familiar do hotel Josefa d’Óbidos, um sítio de amigos para mim. Aqui tomamos o almoço, na cantina do festival. Logo nos cruzamos com alguns meus colegas e alunos na formação sobre Turismo Literário do Turismo de Portugal, e com outros “cúmplices” em minhas anteriores incursões em Óbidos Vila Literária. O Gianfranco começa a gostar de Óbidos, do clima acolhedor e cordial que aqui se respira. Depois do almoço saímos, a chuva parou, ainda há tempo para um café e um bombom, antes de nos encaminharmos para a Biblioteca Municipal de Óbidos – Casa José Saramago, lugar da nossa sessão.

Chegamos pontuais, refrescados e energizados. A conversa começa. O público é atento e curioso. O Gianfranco defende a ideia de que a conversão não é só uma questão religiosa, que também pode ser uma conversão política, filosófica, literária. Na ótica dele, a conversão tem a ver com uma transformação espiritual e que isso pode acontecer fora da religião. Bom, se falarmos de religião enquanto sistema de credos, práticas, epistemologias, escatologias, em sentido institucional e doutrinário, então, compreendo. Contudo, a minha perspetiva é outra, ou seja, que todos somos seres religiosos, porque a religiosidade, tal como a espiritualidade, nos é conatural e nos define enquanto humanos.
Aquela inclinação para a transformação que, segundo o Gianfranco, é a caraterística própria dos seres humanos, não existiria sem um motor que instiga ou inspira à transformação, e esse motor é a nossa natureza intrinsecamente re-ligiosa. Tem a ver com a nossa experiência da fragmentação, da incompletude, da ferida, do rasgo, da sede e da saudade. Todos nós buscamos a recomposição, a reconciliação, a completude, a re-ligação. Em tudo, particularmente naquilo que nos entusiasma, buscamos isso. Portanto, digo eu, cada conversão é religiosa, mesmo que não se trate de uma conversão – no sentido de mudança – dirigida a uma religião na aceção convencional do termo. Ora, isso tudo, durante a conversa no Folio, não o disse ao Gianfranco. Disse-lhe de Pessoa, de Dante, de António Barahona e de Rūmī. E ouvi-o falar de Platão, Foucault, Hadot e São Paulo. Foi muito agradável e o público gostou.

Aproveito para lho dizer aqui. Durante a viagem de regresso, de facto, também não tive tempo, pois estávamos muito ocupados a tentar resolver os enigmas da nossa pátria. A Itália de Garibaldi, de Mussolini, de Berlinguer, de Berlusconi… Falámos ainda de várias outras questões, mais pessoais e íntimas, que me deixaram com uma reflexão: a mais verdadeira conversão vem do aceitar o desafio que nos é lançado pela Verdade, e abdicar da superstição que nos ata à mentira. As curvas sinuosas da estrada levam-nos a uma tranquila noite de Lisboa, ao Campo Grande, e logo de carro até ao bairro onde ambos vivemos. Desta vez, Óbidos não foi só literária, foi peripatética, apesar de só termos andado menos de doze minutos em cerca de doze horas.
Lisboa, 25 de outubro de 2023
Fabrizio Boscaglia

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