Fernando Pessoa e a tolerância no al-Andalus

igreja matriz mertola

Nos escritos iberistas de Pessoa (1915-1918), a civilização islâmica do Al-Andalus encontra-se globalmente elogiada: «[A] nossa grande tradição arabe – de tolerancia e de livre civilização. E é na proporção em que formos os mantenedores do spirito arabe na Europa que teremos uma individualidade àparte.»[i]. Notem-se a relevância e a atualidade destas palavras: um poeta e pensador europeu do séc. XX, ocidental, de formação cultural cristã (se bem que não-católico), manifesta a intenção de ser um «mantenedor» – isto é, um custódio, um herdeiro, um defensor – da componente cultural-civilizacional árabe-islâmica na (e da) Europa.

Destaca-se principalmente o tema da tolerância no Al-Andalus, onde a civilização islâmica permitiu longos períodos de pacífica convivência entre Judaísmo, Cristianismo e Islão, incentivando um clima de diálogo cultural e de notável produção artística, científica e filosófica.[ii]

A revelação islâmica, ao apresentar-se como sintética e integrante em relação às revelações anteriores, reconhecidas dentro de uma Mensagem única e coerente, terá atraído o interesse de Pessoa devido a esta característica, principalmente num período (1915-1916) em que Pessoa refletia e escrevia sobre o tema do cosmopolitismo e ainda sobre a «Teosophia», que «admitte todas as religiões»[iii]. Aliás, foi ao traduzir um texto teosofista que Pessoa encontrou uma referência à tolerância no Islão, nomeadamente no misticismo-esoterismo islâmico chamado sufismo. Num livro traduzido por Pessoa para português e publicado em Lisboa em 1915 sob o título Os Ideaes da Teosophia, a autora inglesa Annie Besant dedicou um capítulo ao tema da tolerância (inter)religiosa e escolheu um dito tradicional islâmico para abordar este assunto. Pessoa traduziu desta forma a passagem em questão:

A Tolerancia não pretende julgar e criticar os Ideaes de outrem, quer com o fim de lhe dictar as opiniões que elle deva ter, quer com o fim de lhe dar licença para ter as que tem; comprehende e submette-se á verdade de aquelle grande proverbio sufi: “Os caminhos para Deus são tantos como as respirações dos filhos dos homens.”[iv]

Na biblioteca particular de Pessoa também se encontram documentos que remetem para a atenção do autor português sobre a tolerância árabe-islâmica. Por exemplo, no livro Espronceda de Antonio Cortón, Pessoa deixou um traço lateral a lápis ao lado desta frase: «[…] los árabes que invadieron la Península en el año 711, ejercían la tolerancia religiosa, hasta el punto de haber dejado á los cristianos, mediante un módico tributo, en absoluta libertad para practicar su religión»[v].

Ainda num outro documento guardado no espólio pessoano, lê-se que a civilização árabe-islâmica é caraterizada, politicamente, pelas seguintes caraterísticas: «a tolerancia, e o aristocratismo arabes»[vi].

O tema da tolerância árabe-islâmica está intimamente ligado a outro assunto que marca o pensamento pessoano por volta de 1916: a síntese cultural, literária e filosófica que Pessoa queria realizar através do movimento chamado sensacionismo e da revista Orpheu. A este respeito, provavelmente sob a máscara do filósofo António Mora, Pessoa escreveu: «[Os sensacionistas têm] a vantagem typica do spirito arabe: a universal curiosidade activa, com que acceitam as influencias de todas as bandas, lhes aprofundam o sentido, lhes reunem os resultados e finalmente as transformam na substancia do seu proprio spirito.»[vii]. O suficiente para Pessoa-Mora afirmar: «O sensacionismo é puramente arabe»[viii]; e acrescentar: «A essa corrente chamaram os seus membros o “sensacionismo”; se houvessem tido a noção exacta das origens, ter-lhe-hiam dado, antes, o nome de /neo/-arabismo»[ix].

Este texto é um excerto da comunicação que dei no III Congresso Internacional Fernando Pessoa, cuja versão completa pode ser lida e descarregada ao clicar aqui.

Na imagem: Igreja Matriz / Antiga mesquita de Mértola [foto: CM de Mértola]

[i] BNP/E3, 97-13r; F. Pessoa, Ibéria, cit., p. 71.

[ii] Cf. Massimo Jevolella, Le Radici Islamiche dell’Europa, 2005, pp. 53-54; cf. Alessandro Aruffo, L’Europa e le sue radici islamiche, 2007, p. 22.

[iii] Cf. F. Pessoa, Correspondência 1905-1915, , 2006 [1998], p. 182.

[iv] Annie Besant, Os Ideaes da Theosophia, 1915, pp. 68-69.

[v] Antonio Cortón, Espronceda, 1906, p. 89 (n.) (CFP, 9-21).

[vi] BNP/E3, 55J-23r; cf. F. Boscaglia, «Fernando Pessoa e a grande tradição árabe» [título provisório], [2014], [no prelo].

[vii] BNP/E3, 88-20; F. Pessoa, Sensacionismo e outros ismos, cit., p. 223.

[viii] BNP/E3, 88-19r; F. Pessoa, Sensacionismo e outros ismos, cit., pp. 222.

[ix] BNP/E3, 88-20r; F. Pessoa, Sensacionismo e outros ismos, cit., pp. 222-223.

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