Ecos sufis em Fernando Pessoa?

Um tema ainda pouco estudado é a possível presença de um eco de sabedoria sufi nas Rubaiyat de Pessoa “inspiradas” pelas Rubaiyat de Omar Khayyam. Com efeito, embora a tradução de FitzGerald – lida por Pessoa – tenha parcialmente modificado e adulterado a obra de Khayyam, é possível que alguns elementos originários da mensagem khayyamica – nomeadamente elementos místicos e esotéricos do Islão – tenham passado pela tradução do tradutor-escritor inglês e tenham atraído a atenção de Pessoa. Este, aliás, contextualmente com o interesse por Khayyam, lia obras de poetas e místicos sufis, tais como Hāfiz e Rūmī.[i]

Uma das imagens clássicas da poesia sufi é a figura do coração, “lugar” simbólico da presença Divina “no” ser humano, conforme o dito sagrado transmitido pelo profeta Muḥammad, pelo qual Allah – Deus – afirma: «Verdade seja dita céus e terra são incapazes de Me conter, mas o devoto, suave coração do Meu fiel servo é capaz de Me conter».[ii] Esta sabedoria parece ecoar numa rubā‘i de Pessoa:

São velhas as estrellas, ellas são

Grandes. Velho e pequeno é o coração,

E contém mais do que as estrellas todas,

Sendo, sem spaço, mais que a immensidão.[iii]

A presença deste tipo de imagem nas Rubaiyat de Pessoa não nos deve admirar, sendo que a figura do coração como pretexto para falar da presença de Deus “no” homem – ou antes, da extinção mística do indivíduo “em” Deus (fanā’ fī Allāh)[iv] – está presente em vários poemas sufis lidos por Pessoa, entre os quais, possivelmente, algumas Rubaiyat de Khayyam:

O Heart, from the dust of the body wert thou free,

Then wert thou a naked spirit in the skies.

The Throne of God is thy seat; thy shame let it be

That thou dost come and in this domain of dust dost dwell.[v]

Lendo estes versos e moldando em si um autor de Rubaiyat, quase vinte anos após ter cantado a «saudade imperial» de Boabdil e quase trinta anos após ter percorrido os «profundos pensamentos»[vi] de Al-Cossar, Fernando Pessoa continuava a alimentar o seu diálogo com as vozes poéticas, filosóficas e místicas da civilização arábico-islâmica.

Este texto é um excerto da comunicação que dei no III Congresso Internacional Fernando Pessoa, cuja versão completa pode ser lida e descarregada ao clicar aqui.

Na imagem: BNP/E3, 64-14r

[i] Cf. Edward Browne, Edward G. Browne (Poems from the Persian), [1925] (CFP, 8-71).

[ii] Cf. [Abdul Khaliq Kazi, Alan B. Day] [trad.], Al-Ahadith Al-Qudsiyyah (Divine Narratives), 1995, p. 217. Sobre os «ditos divinos» no Islão, cf. Muḥammad, Quarenta Ditos Divinos (Aḥadīth Ilāhinna) – Transmitidos pelo Profeta Muḥammad, 2010.

[iii] BNP/E3, 64-14r; F. Pessoa, Rubaiyat, p. 44.

[iv] Trata-se de um tema clássico do ensinamento sufi.

[v] Thomas Hunter Weir, Omar Khayyám The Poet, 1926, p. 50 (CFP, 8-662 MN).

[vi] «deep thoughts» (BNP/E3, 26A-60r; cf. «Presence of Islamic philosophy in unpublished writings by the young Fernando Pessoa», cit., p. 158.

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