Uma prece de Fernando Pessoa

Senhor, que és o ceu e a terra, e que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o n[osso] amôr és tu tambem. Onde nada está tu habitas e onde tudo está é o teu templo.

Dá-me vida para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no ceu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.

Torna-me puro como a agua e alto como o ceu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagôas dos meus propositos. Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pae.

Bemdito seja o teu nome de Ceu e de Terra, e de Corpo e Alma, e de Vida e Morte!

Louvam-te: a cara e as mãos te louvam.

Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da Terra tua carne. Minha alma possa aparecer deante de ti como um filho que volta ao lar.

Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa vêr sempre em mim e rezar-te e adorar-te.

Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu □

Senhor, livra-me de mim. Unge-me da Tua divina □

Que o meu pomar dê frutos saborosos a Ti e a minha vide dê vinho □

Quando me movo, és tu que te moves; quando fallo, és tu que me és fallando. Quando dou um passo, avanças tu. Se paro, estacas de mim.

Fernando Pessoa
Versão publicada em: Fabrizio Boscaglia, «“Di là dall’orizzonte”: scritti, pensieri e immagini dagli archivi di Fernando Pessoa», Tintas. Quaderni di letterature iberiche e iberoamericane, 4 (2014), 317-318.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal/Espólio 3, 20-48v.
[□: espaço deixado em branco pelo autor]
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