Al-Muʿtamid e Adalberto Alves: mostras na BNP alimentam debate sobre legado islâmico em Portugal

Al-Muʿtamid e Adalberto Alves são dois entre os escritores que mais frequentemente se mencionam quando se fala do legado árabe e islâmico em Portugal. O primeiro foi poeta e rei do al-Andalus, no século XI. O segundo, poeta dos nossos dias, tem sido, além disso, estudioso e divulgador da referida herança em terras lusas, inclusivamente traduzindo a obra do próprio al-Muʿtamid, cerca de um milénio depois deste ter nascido em Beja e ter passado parte da sua vida no ocidente peninsular (outrora, em árabe, Gharb al-Andalus).

Neste artigo, apresento de forma sucinta os mencionados dois autores a quem ainda não os conhece, no ano em que ambos mereceram homenagem pela Biblioteca Nacional de Portugal (BNP) entre fevereiro e julho de 2020, com duas exposições, nas quais tive o prazer de ser um dos curadores, com Maria João Cantinho e Hugo Maia. Reparei, aliás, que tais iniciativas contribuíram para o debate internacional acerca da redescoberta do passado islâmico em Portugal, debate este, que aqui também queremos brevemente considerar, à luz da atualidade.

Assim, aproveito para me despedir de duas exposições cujo projeto, montagem e programação foram para mim experiências humanas, intelectuais e profissionais felizes, partilhadas com os outros dois curadores, aos quais envio a minha palavra de agradecimento.

Al-Muʿtamid: cantor do exílio extremo-ocidental

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Pormenor da contracapa da revista Al-Mu’tamid

Al-Muʿtamid ibn ʿAbbād (Beja, 1040 – Agmate, 1095), poeta árabe do al-Andalus, foi rei de Sevilha e constitui uma das vozes mais importantes da literatura árabe medieval e peninsular. Membro da dinastia abádida, a sua vida está particularmente ligada à cidade de Silves, onde passou uma parte da adolescência com o seu amigo predileto Ibn ʿAmmār, ele também poeta. Foram, os de Silves, tempos alegres, aos quais, contudo, se seguiram dramas. Uma das tragédias da vida de al-Muʿtamid foi, aliás, o facto de, anos depois, ter morto pelas suas mãos o próprio Ibn ʿAmmār, por causa de intrigas políticas no contexto do reino de Sevilha. Entre amores e peripécias, mecenatismo e derrotas, al-Muʿtamid acabou por falecer exilado em Marrocos, em condições míseras, aquando da tomada do al-Andalus pela dinastia amaziɣ (dita «berbere») dos Almorávidas.

Na poesia de al-Muʿtamid encontramos o tema amoroso, assim como a sensualidade, sobretudo nos anos da juventude, e ainda um tom confessional, inclusivamente espiritualista e contemplativo, que marca a escrita no final da sua vida.

«Tudo tem o termo p’ra que corre,
Como os seres a própria morte morre.
O destino tem a cor de um camaleão
Que é variável de seu próprio estado,
Somos jogo de xadrez em suas mãos:
Perde-se, talvez, o rei por causa dum peão.
A terra fica erma, o homem enterrado.
Este mundo vil nunca responde
Ao enigma do Além: Agmat o esconde.»

(Al-Muʿtamid, tr. em A. Alves, O Meu Coração é Árabe, 1987)

A receção e o impacto cultural da figura e da obra do rei-poeta bejense são consideráveis, tanto em Portugal, como no mundo arábico-islâmico, como a nível global. Citado em versões d’As mil e uma noites, al-Muʿtamid é um dos mais lidos e traduzidos poetas clássicos da língua árabe. Além disso, a ele têm sido dedicadas iniciativas artísticas, multimédia e internacionais, como o Festival Al-Mutamid, o projeto musical Al-Mu’tamid, Poeta Rei do Al-Andalus e ainda o roteiro turístico-cultural Rota de Al-Mutamid.

Em Portugal, al-Muʿtamid tem sido objeto de estudo e tradução, pelo menos desde o século XIX, por vários estudiosos, como são os casos do arabista Garcia Domingues, do historiador António Borges Coelho, e ainda do professor Adel Sidarus e do mencionado Adalberto Alves.

Poucos sabem que o poeta e pensador Fernando Pessoa, juntamente com o seu amigo Augusto Ferreira Gomes, se interessou pelo rei-poeta do Gharb al-Andalus, por volta de 1928. Em textos elaborados por ambos, al-Muʿtamid e publicados no verão daquele ano em O “Notícias” Ilustrado, encontra-se uma clara revindicação do legado arábico-islâmico em Portugal, a partir da leitura de poemas de al-Muʿtamid, que Pessoa possivelmente tinha lido em tradução inglesa. Eis o que lemos num destes textos, intitulado «O Renascer de um Símbolo – Al-Motamide, o iniciador»:

«A figura do poeta aparece-nos entre sonhos de beleza e intuições extraordinárias. Há, em volta da sua obra, um nimbo de visão que, através um lúcido lirismo, dá, nos nossos dias, uma diretriz anímica à sonolência fatal dos nossos tempos.»

(Cf. F. Pessoa, Sebastianismo e Quinto Império, 2011)

Reflexões, estas, que participam do complexo pensamento do autor da Mensagem acerca do destino de Portugal e da civilização universal, a caminho, segundo ele, de uma nova era cultural e espiritual, por ele designada de Quinto Império.

Adalberto Alves: as epifanias culturais de um coração «árabe»

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Adalberto Alves no dia da inauguração da mostra a ele dedicada (3 fev. ’20, fotografias da BNP)

Adalberto Alves (Lisboa, 1939-) é autor polifacetado, independente, prolífico e, a partir da década de 1980, marcante no que respeita à divulgação do legado do al-Andalus em Portugal. Advogado, poeta, tradutor, estudioso da cultura árabe e da espiritualidade islâmica, Adalberto Alves tem sido um incansável intérprete e dinamizador da redescoberta da herança árabe e islâmica, através de obras e traduções que tiveram um significativo sucesso entre os leitores, como O Meu Coração é Árabe – A poesia luso-árabe (1987), Al-Muʿtamid – Poeta do destino (1996) e As Sandálias do Mestre – Em torno do sufismo de Ibn Qasí nos começos de Portugal (2001). À sua dedicação deve-se igualmente o ambicioso Dicionário de Arabismos da Língua Portuguesa (2013). Como reconhecimento do seu trabalho, em 2008 foi-lhe atribuído o Prémio UNESCO-Sharjah para a Cultura Árabe.

Para muitos leitores, o nome de Adalberto Alves tornou-se, em Portugal, quase indissociável da figura de al-Muʿtamid, já que aquele foi o mais ativo tradutor e divulgador deste, entre finais do século XX e o início do século XXI. No que respeita ao diálogo entre culturas árabe e portuguesa, é importante referir, aliás, e entre outros projetos do autor lusitano, a iniciativa de homenagem a al-Muʿtamid que Adalberto Alves dinamizou em Beja em 1985 (e da qual resultou um livro), inaugurando, assim, uma nova estação de redescoberta e reinterpretação, em Portugal, do rei-poeta do al-Andalus.

Enquanto poeta, Adalberto Alves deixa claramente ver que a cultura árabe e a espiritualidade islâmica constituem uma verdadeira inspiração, surgindo como «epifania cultural» ao longo da sua vida de estudioso e de viajante (por terras árabes e islâmicas). Já a partir dos títulos de algumas suas obras poéticas, nota-se a presença do imaginário «oriental» (Oriente de Mim, 1992; Irão – Viagem ao país das rosas, 2007), assim como de aspetos do universo simbólico e espiritual da cultura islâmica, como é o caso de A Noite do Destino (1993), explícita referência à expressão árabe laylat al-qadr, que no Islão designa a noite na qual Muḥammad (Maomé, profeta do Islão) recebeu a primeira revelação do Alcorão, pelo anjo Gabriel, em Meca, no ano de 610. A espiritualidade islâmica e universal, assim como a poesia espiritualista de Fernando Pessoa e Teixeira de Pascoaes, serão, pois, duas das influências nos versos de Adalberto Alves, que frequentemente refletem a meditação do autor sobre a dimensão mística da vida e da própria palavra poética.

«sou aquela sede ardente:
vou sofrendo hora a hora
e a Verdade é-me urgente.»

(A. Alves, O Que da Pena Escorre, 2017)

Um legado cultural, um valor comunitário

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Autógrafo de Pessoa intitulado «As causas longínquas da homenagem a Al-Motamide»
BNP/E3, 125-1r

Em junho de 2020, Al-Jazeera publicou um artigo em inglês, da jornalista portuguesa Marta Vidal, intitulado «The Portuguese rediscovering their country’s Muslim past», que foca na representação e redescoberta do Islão e do al-Andalus em Portugal, ao referir entrevistas com especialistas e estudiosos, entre os quais Filomena Barros, Cláudio Torres, Susana Martinez e Adalberto Alves. As mostras dedicadas a este autor e al-Muʿtamid, pela BNP, também se encontram ali referidas, ao alimentarem um discurso sobre a reapropriação do passado islâmico peninsular, na narrativa identitária lusa.

Dois anos antes, em 2018, o condecorado jornalista britânico Robert Fisk tinha publicado no The Independent outro artigo, intitulado «There’s a reason why anti-Muslim ideology hasn’t found a home in Portugal», no qual é-nos sugerido que uma certa consciência cultural da herança árabe e islâmica contribua para uma escassa incidência da islamofobia em Portugal. Consideração esta, que merece um debate crítico e aprofundado, mas que nos permite refletir sobre o facto de o investimento cultural – quer a nível de investigação científica, quer de divulgação e de ensino escolar – ser um fator importante para o reconhecimento histórico-cultural, não ideológico nem folclórico, e para um diálogo autêntico entre civilizações e comunidades.

A este respeito, a Biblioteca Nacional de Portugal (BNP) tem sido entre as instituições que mais têm protagonizado este processo de redescoberta e reinterpretação. Só entre 2017 e 2020, sob a direção da dra. Maria Inês Cordeiro e no contexto de uma parceria com a Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, contam-se quatro exposições dedicadas ao legado árabe e islâmico em Portugal, nas quais tive o privilégio de colaborar: Árabes e Islão na Literatura e no Pensamento Português (2017), As mil e uma noites em Portugal (2018), Al-Muʿtamid: poeta do Gharb al-Andalus (2020) e Adalberto Alves: 40 anos de vida literária (2020).

Importante será destacar que, entre as instituições que apoiaram as duas mostras de 2020, figuram a Comunidade Islâmica de Lisboa (CIL) e a Fundação Islâmica de Palmela (FIP), a testemunhar de como as comunidades islâmicas portuguesas encontram-se ativamente envolvidas neste processo cultural e educativo. A CIL empenhou-se inclusivamente na realização de uma reportagem da RTP2, dedicada às duas referidas exposições. É também oportuno referir que a própria CIL elegeu em junho de 2020 o seu novo presidente, Mahomed Iqbal, que sucede ao histórico líder da comunidade, Abdool Magid Vakil. As primeiras palavras de Iqbal após a eleição apontam para o «espírito de paz e de harmonia inter-religioso e intercomunitário» da CIL, sendo que o jornal Expresso regista ainda que a «cultura» é uma prioridade da nova direção para os próximos três anos. Palavras estas, que têm de ser saudadas com alegria e desejo da melhor concretização possível, inclusivamente para cada vez mais se ultrapassarem as narrativas de choque entre civilizações, que ainda atuam na sociedade.

Antes de finalizar, colho ainda a ocasião para agradecer ao mencionado dr. Vakil (ex presidente e equipa de direção da CIL), assim como à dra. Manuela Rêgo (ex responsável pelas mostras na BNP), pelas profícuas colaborações, o extraordinário esforço e os sucessos nas suas respetivas funções, ao longo dos anos. Ao mesmo tempo, envio uma palavra de reconhecimento e o desejo dos melhores êxitos a quem passou a desempenhar tais importantes papeis, respetivamente ao dr. Iqbal e à dra. Gina Rafael.

As mostras sobre al-Muʿtamid e Adalberto Alves são visitáveis até 31 de julho de 2020, gratuitamente, na Sala de Referências da própria BNP.

 

Lisboa, 28 de julho de 2020

Fabrizio Boscaglia

 

Como citar este texto:

Fabrizio Boscaglia, «Al-Muʿtamid e Adalberto Alves: mostras na BNP alimentam debate sobre legado islâmico em Portugal», página web, 28 jul. 2020, consultada a 28 jul. 2020, https://fabrizioboscaglia.com/2020/07/28/al-mutamid-adalberto-alves 

 

Versão em PDF (com referências bibliográficas extensas):

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